
“(...)Na crítica ao espetáculo, *¹ Marco Antônio de Menezes
descreve: "A cortina já está aberta quando você chega: enormes rosas à
esquerda, enorme garrafa de Coca-Cola à direita, enorme tela de TV no fundo,
uma passarela branca avançando até metade da plateia. [...] A campainha toca
três vezes, a plateia faz silêncio, ruídos estranhos saem dos alto-falantes, na
tela de TV aparece uma frase: 'Estamos à toa na vida'. [...] Entra o coro, com
longas túnicas vermelhas e mantilhas pretas. Canta uma triste Aleluia, rodeia Benedito.
Aparece o Anjo da Guarda (Antônio Pedro), o empresário de TV, com asas negras,
cassetete de policial na cintura, maquiagem de palhaço de circo: 'Benedito não
serve, nós precisamos de um ídolo! Você será Ben Silver!' E o coro joga para
trás as túnicas e mantilhas, é agora um grupo de jovens iê-iê-iê que canta:
'Aleluia, temos feijão na cuia!' [...] O espetáculo não está somente no palco,
o coro invade a plateia, conversa com ela, e o empresário pede um minuto de
silêncio em homenagem ao ídolo: cada participante do coro olha fixamente um
espectador (agora todos já entendem por que a bilheteria insistiu em vender
ingressos da primeira fila). [...] O minuto termina, Ben Silver é carregado
para o palco num grotesco andor feito de long-plays e fotos de cantores,
conduzido por grotescas caricaturas das 'macacas de auditório', que no fim do
primeiro ato o levam embora, deitado sobre uma cruz de madeira, nu, cansado sob
o peso do próprio sucesso. [...] Ben Silver, esgotado pelo sucesso, procura o
consolo de sua mulher [...] para uma linda cena de amor que é repentinamente
interrompida pela câmara (sic) de TV e pelo Capeta (o jornalista desonesto)
[...]. E juntos, o jornalista e o Ibope decretam o fim da carreira de Ben
Silver: 'O ídolo é casado! E além de tudo, é bêbado!' Uma procissão de três
matronas antipáticas tenta salvar o ídolo exigindo que ele faça caridade. Mas
nada adianta, Ben Silver acabou. Só há uma solução: transformá-lo em Benedito
Lampião, o 'cantor de protesto', vestido de nordestino, falando de 'liberdade'
e de 'vamos lutar'. A esquerda festiva o aclama, o jornalista vendido perde sua
porcentagem e a vontade de elogiar o Lampião. O Ibope, vestido de papa, decreta
novo fim para Benedito Lampião. Para manter o prestígio, ele deve suicidar-se.
[...] A plateia sai do teatro evitando sujar os saltos dos sapatos Chanel nos
restos do fígado de Benedito Silva que o coro das fãs devora no final. [...]
Tudo é caricatura do religioso no espetáculo, que, como atividade religiosa, se
desenvolve em todo o teatro, palco, galerias, plateia (O teatro com que sonhava
Antonin Artaud). Para criar o ídolo, ele é liturgicamente paramentado, peça por
peça de seu ridículo traje prateado. [...] os atores se dirigem agressivamente
à plateia, fazem perguntas, pedem assinaturas em manifestos, sacodem e encaram
os espectadores (a censura de 14 anos me parece muito pouco severa para o
espetáculo). Ben Silver se encontra com a esposa coroado de espinhos, nu, como
o Cristo. A tentativa de salvar o ídolo em decadência é encenada como uma
procissão, liderada pelo Capeta (seria a peça toda uma Missa Negra?) - que
satiriza o jornalista marrom - usando como cruz o conhecido 'X' de lâmpadas
empregado pelos fotógrafos. E a primeira cena entre Benedito e sua mulher é uma
caricatura da Visitação de Nossa Senhora. [...] Elementos cristãos, aliás, são
misturados com rituais pagãos (o fígado de Prometeu, as orgias de Dionísio),
até com rituais políticos (a foice-e-martelo no chapéu nordestino de Benedito
Lampião). José Celso, na realidade, mais que dirigir, celebrou Roda Viva”.(*¹ - MENEZES, Marco Antônio de. Roda Viva, de Francisco
Buarque de Holanda. Jornal da Tarde, São Paulo, 2 fev. 1968) - (Fonte: Itaú Cultural.org.br)
Na estreia, no Rio de Janeiro, fizeram parte do elenco Marieta Severo, Heleno Prestes e Antônio Pedro, nos papéis principais, e a temporada foi considerada um sucesso.
Durante a segunda temporada, em São Paulo, com Marília Pera,
André Valli e Rodrigo Santiago substituindo o elenco original, a obra virou um
símbolo da resistência contra a ditadura militar. Um grupo de cerca de cem
pessoas do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), invadiu o Teatro Galpão, e
espancou os artistas e depredou o cenário.
Após o revés na capital paulista, o espetáculo voltou a ser
encenado, desta vez em Porto Alegre. No entanto, os atores da peça voltaram a
ser vítimas da violência e intransigência do CCC e, após este segundo
incidente, o Roda Viva deixou de ser encenada. Mas esta é considerada uma das
mais importantes peças de teatro brasileiras já produzidas nos anos 60.
(Wikipédia)

Outros incidentes ocorreriam com “Roda Vida”. Em outubro,
poucos dias antes da sua estreia em Porto Alegre, panfletos foram distribuídos
pela cidade dizendo: “Hoje poupamos a integridade física dos atores e
espectadores, amanhã não”. A cidade encheu-se de cartazes do CCC com ameaças
aos atores, incitando-os a deixar a cidade. À noite, quando o elenco voltava da
peça para o hotel onde estava hospedado, foi atacado por 30 homens armados. A
atriz Elizabeth Gasper e o violinista Zelão, seu marido, que faziam parte do
elenco da peça, foram sequestrados, humilhados e abandonados longe da cidade.
Durante o sequestro, foram pressionados a deixar a cidade em 16 horas.
(Fonte: http://jeocaz.multiply.com/journal?&page_start=180&show_interstitial=1&u=%2Fjournal).
Atuação: Segundo o almanaque do jornal Folha de S. Paulo, o
CCC foi responsável pelos seguintes eventos:
- Invasão do Teatro
Ruth Escobar, em São Paulo, onde espancaram o elenco do espetáculo Roda Viva
(em 18/7/1968);
- Atentado à bomba no
Teatro Opinião, no Rio de Janeiro (em 2/12/1968);
- Sequestro e
assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto, em Recife (em 26/5/1969).
De acordo com a professora Maria Yedda Leite Linhares,
primeira mulher catedrática em História da Universidade do Brasil (em 1955),
"(...)quando houve o golpe militar, a Rádio MEC foi invadida por
integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) que literalmente destruíram
seus estúdios."
Segundo relatado pela Fundação Perseu Abramo e publicado
pelo jornal Folha de S. Paulo em 28 de novembro de 1977, "(...) As sedes
dos DA de Filosofia e Letras, DA Leão XIII, CA de Ciências Sociais e Serviço
Social, CA 22 de agosto e do DCE -Diretório Central dos Estudantes- foram
depredadas. Portas que estavam fechadas apenas com o trinco foram arrombadas a
pontapés. As gavetas foram arrancadas fora das mesas e seu conteúdo jogado no
chão. Em vários restos de portas ficaram bem nítidas as marcas dos pontapés. Em
diversas salas foi pichada a sigla CCC (Comando de Caça aos Comunistas),
organização que, como a AAB Aliança Anticomunista Brasileira, se opusera à
ideologia comunista. Uma lista enorme de bens das entidades foi levada pela
polícia. A biblioteca também foi invadida e seus ocupantes expulsos aos gritos
e ameaças de cassetetes. Os policiais jogaram vários livros no chão. Entraram
com violência e, usando palavras de baixo calão, nas salas de aula, prendendo
todos os seus ocupantes, e muitas vezes espancando-os..."
Voce sumiu de repente, nem me disse o que achou das fotos que enviei...
ResponderExcluirTudo bem com voce?
Beijo.
Libera o email do YR por uns minutos pra eu te enviar umas fotos, não quero ter que publicar pra poder mandar o URL...
ResponderExcluir